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Nawal El Saadawi - Egito - MULHERES ESCRITORAS

  • Foto do escritor: Paulo Pereira de Araujo
    Paulo Pereira de Araujo
  • há 7 dias
  • 2 min de leitura
Nawal El Saadawi, escritora e médica, uma voz potente em favor das mulheres
Nawal El Saadawi, escritora e médica, uma voz potente em favor das mulheres

Nawal El Saadawi e a Palavra como Ato de Resistência


Há momentos em que a literatura e a vida se confundem, como se a realidade precisasse da palavra escrita pra existir. Foi assim com Nawal El Saadawi, cuja história me impressiona não apenas pelo horror que enfrentou e sim pela coragem com que o narrou.


Aos seis anos, sofreu a mutilação genital feminina. Foi justamente essa dor que acendeu nela a consciência da opressão contra mulheres no Egito e no mundo. Filha de um pai exilado e de uma mãe permissiva, Nawal cresceu entre ordens e contradições familiares.


Aprendeu cedo que a vida das mulheres é muito frequentemente moldada por imposições alheias. Como médica em vilarejos egípcios, ela testemunhou prostituição, crimes de honra, abusos sexuais e tudo aquilo que muitos preferem esconder sob tapetes silenciosos.


Foi essa experiência que transformou sua escrita em arma, presente no livro Mulheres e Sexo (1972). Com coragem, ela denunciou a violência e isso custou-lhe perder cargos de prestígio, mas não calou sua voz.


Nawal seguiu escrevendo, lecionando, ganhando prêmios, doutorados honorários e rompendo fronteiras físicas e intelectuais. Depois veio Mulher no Ponto Zero, com o retrato de Firdaus, prisioneira condenada à morte, que enfrentou a própria execução sem se submeter a clemência.


Firdaus teve negada a educação e foi forçada a casar-se com um homem velho e violento. Ela entrou no mundo da prostituição para buscar autonomia. O que me fascina é essa raiva justa, essa revolta feminina que se transforma em força, que se recusa a dobrar-se diante de uma sociedade que insiste em ver a mulher como objeto ou cifra de honra.


Nos anos 1970 e 1980, Nawal El Saadawi tornou-se referência internacional ao liderar programas da ONU, ao fundar a Associação de Solidariedade das Mulheres Árabes e ao escrever clandestinamente memórias na prisão. Recebeu ameaças de morte, foi exilada nos Estados Unidos, lecionou em Harvard, Yale, Columbia e Sorbonne e nunca deixou de questionar o poder, a religião e a tradição.


Retornou ao Cairo em 1996. Enfrentou conservadores, candidatou-se à presidência, participou nos protestos da Praça Tahrir e escreveu peças que desafiaram até autoridades religiosas.


O que permanece extraordinário em Nawal el Saadawi é o legado do pensamento crítico aplicado à vida. Ela denunciou que a mutilação genital feminina não tem origem religiosa e é sustentada por estruturas patriarcais e capitalistas ligadas à honra familiar e ao controle da sexualidade feminina.


Ela questionou leis discriminatórias, violência doméstica, direitos de herança e o consentimento paterno para casamento. Sua obra inspira ainda hoje mulheres como Mona Eltahawy a lutar por direitos familiares, sociais e econômicos.


Nawal El Saadawi morreu em 2021. Deixou filhas que jamais conheceram a navalha que corta carne e espírito. Entre nós, deixa a lição de que a palavra, quando afiada, é escudo e espada contra a opressão. Ela nos lembra que a liberdade se constrói com coragem e que o silêncio é sempre cúmplice do sofrimento.



 
 
 

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