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Capítulo Desesperado - ESTRANHOS CAMINHOS DE SANDRO E TIAGO

  • Foto do escritor: Paulo Pereira de Araujo
    Paulo Pereira de Araujo
  • 21 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 25 de jan.



Por mais que a vida o machuque, pense em tomar um conhaque de alcatrão com limão
Por mais que a vida o machuque, pense em tomar um conhaque de alcatrão com limão

Caminho há horas, ou dias, perdi a medida, em meio a uma nevasca que não combina com o sul do Quênia, e talvez seja isso o que mais me assuste. O mundo virou branco demais, um branco agressivo, que não acolhe.


Meus pés já não respondem como antes. Cada passo é uma negociação. Sinto o frio subir pelas pernas, instalar-se no peito, morder os dedos como um animal paciente. Não sei para onde ir. Só sei que parar é desistir, e desistir aqui tem outro nome.


É quando vejo a caverna.


Não aparece como salvação, aparece como possibilidade. A entrada está quase engolida por vegetação seca, galhos retorcidos, folhas duras que estalam sob minhas mãos trêmulas.


Não parece um lugar feito para receber alguém. Parece um erro na paisagem. Ainda assim, empurro o que posso, forço o corpo por uma abertura estreita e entro.


A escuridão me engole de imediato.


Dou alguns passos cautelosos. O vento lá fora some de repente, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível. O silêncio aqui dentro não é vazio; ele pesa. Escuto minha própria respiração, curta demais, alta demais.


O frio diminui um pouco, mas o corpo continua tremendo, como se não confiasse na trégua. Caminho às cegas, tateando a parede úmida.


A rocha é áspera, antiga e indiferente à minha presença. Tenho a sensação incômoda de que estou sendo tolerado, não acolhido.


Então escuto.


Um som baixo, irregular. Não é vento. Não é água. É algo que se move. Algo que respira. Paro imediatamente. Meu corpo inteiro entra em alerta, mesmo cansado, mesmo quase vencido. O barulho se repete, agora mais perto.


Um arrastar contido, como se alguém, ou alguma coisa, estivesse tentando não ser percebido. Penso em Sandro. Não sei por quê. Talvez porque, quando tudo escurece demais, a mente procura um rosto conhecido para não se perder de vez. Talvez porque ele seja, para mim, a última prova de que ainda pertenço a algum lugar.


Dou um passo para trás. A pedra cede um pouco sob meu calcanhar e o som ecoa, traindo minha posição. O barulho responde. Não com pressa, com certeza.

Há algo aqui comigo.


Engulo o medo como posso. Não grito. Não corro. Apenas fico respirando no escuro, esperando que meus olhos se acostumem, esperando entender se o que se aproxima é ameaça ou apenas mais um corpo perdido, como o meu, tentando sobreviver ao impossível.


A caverna não responde. Ela apenas guarda o segredo por mais alguns segundos. Estranhamente, sinto que esses segundos vão me definir mais do que todo o caminho até aqui.


Então escuto algo que não combina com pedra nem com vento. Um zumbido mecânico, contínuo, como de um aparelho antigo ainda em funcionamento. Junto a isso, gemidos agudos, insistentes, que não pedem exatamente socorro, parecem exigir atenção. O som vem de mais adiante, misturado à escuridão.


Caminho do jeito que dá, arrastando o corpo, guiado mais pelo ouvido do que pelos olhos. A cada passo, o zumbido cresce. Até que percebo uma luz fraca, amarelada, tremendo como se também estivesse com frio. Não é fogo. É elétrica. Isso me inquieta mais do que deveria.


Aproximo-me.


Quando chego, vejo um homem sentado no chão da caverna, o tornozelo preso por uma corrente grossa, enferrujada e fixada na rocha. Ele segura um pedaço de pedra e com ela golpeia o metal com desespero metódico, como se acreditasse que insistir fosse uma forma de milagre. O aparelho que faz o barulho está ao lado dele, algo improvisado, fios expostos e uma luz que pulsa sem ritmo claro.

Quando ele me vê, arregala os olhos.


— Pelo amor de Deus, me ajuda! — grita, com a voz rouca, quase infantil no pânico.


Chego mais perto, ainda confuso, ainda tentando entender se aquilo é real ou mais um delírio produzido pelo frio e pelo cansaço.


— Quem é você? — pergunto, mais para ganhar tempo do que por curiosidade.

Ele me encara como se a resposta fosse óbvia, como se eu estivesse encenando ignorância.


— Sou Jair Bolsonaro — diz, com uma urgência ofendida. — Estou preso aqui por causa da perseguição de um homem chamado Xandão.


O nome ecoa estranho dentro da caverna, como se não pertencesse àquele espaço. Ele continua falando sem que eu diga nada, como se estivesse ensaiando esse discurso há muito tempo.


Conta que foi caçado, silenciado e traído. Que cada elo daquela corrente carrega uma injustiça. Descreve com detalhes o que vem sofrendo por causa daquele homem: a vigilância constante, as punições e o isolamento. Fala rápido, atropelando as próprias frases, como se temesse que eu desaparecesse se ele respirasse fundo.


— Eu preciso sair daqui — diz, quase chorando. — Preciso voltar. Há um país distante que depende de mim. Um país enorme, com tudo para dar certo… e que nunca dá.


Sinto um arrepio que não vem do frio.


Ele se ergue o quanto a corrente permite e baixa a voz, conspiratório.


— Eu fui escolhido — diz. — Zeus me escolheu. Eu sou o homem destinado a mudar o destino daquele país.


Olho para a corrente, para a pedra na mão dele, para a luz instável, para o delírio que se apresenta com convicção absoluta. Não sinto raiva. Também não sinto pena.


Sinto um cansaço antigo, como se já tivesse ouvido aquela história muitas vezes, dita por bocas diferentes e sempre com a mesma certeza messiânica.


— Você vai ou não vai me ajudar? — pergunta, estendendo a mão na minha direção. — Não é possível que você esteja aqui por acaso.


Não respondo de imediato. A caverna parece menor agora, comprimida pela fala dele. Penso na nevasca lá fora, no caminho perdido, em Sandro, em como algumas prisões não precisam de correntes para funcionar.


Fico ali, em silêncio, tentando entender se o que está diante de mim é um homem preso… ou apenas alguém que nunca soube sair de si mesmo.


 

 

 

 
 
 

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