Manual para Descer do Trem no Corpo Errado - ESTRANHOS CAMINHOS DE SANDRO E TIAGO
- Paulo Pereira de Araujo

- 11 de fev.
- 3 min de leitura

A Manga da Farda Não Seca Roteiro
Desci do trem como quem erra o próprio corpo. Damasco ficou para trás sem se despedir e eu entrei numa rua escura que mais parecia um pensamento mal iluminado.
Um beco estreito, desses que não constam nos mapas por pudor. Foi ali que vi alguém sentado na calçada, dobrado sobre si mesmo, chorando com aplicação, como se estivesse ensaiando. Cheguei mais perto e reconheci o uniforme antes do rosto. Era Volodymyr Zelensky.
Roupa de guerra completa, coturnos firmes. O choro totalmente desalinhado com o figurino. Perguntei, por educação ou curiosidade, se era o avanço das tropas russas, essas coisas grandes que costumam justificar lágrimas públicas. Ele me olhou ofendido, como quem foi mal interpretado, e disse que não.
Encenação Dentro da Encenação Dentro de Nada
Chorava porque tinha sido indicado ao Oscar. Não ele, a série. Aquela em que faz o papel de presidente da Ucrânia. Disse isso com a voz embargada, não sei se pela emoção ou pela confusão entre personagem e cargo.
Ficamos ali em silêncio. Eu sem saber onde estava. Ele sem saber quem era. O beco continuava escuro, mas agora fazia sentido nenhum. O que, naquela altura, já era alguma coisa.
Ele enxugou o rosto com a manga da farda, como quem tenta apagar um papel que não escreveu. Continuou falando, cada vez mais baixo, como se o beco tivesse ouvidos.
Ainda achavam que ele estava representando. Ninguém sabia mais onde terminava a série e onde começava o cargo dele. Onde acabava o ator e onde começava o presidente. Depois inclinou a cabeça e soltou a frase como quem confessa um crime mal ensaiado:
- Foi o Putin. Ele fez a campanha de indicação ao Oscar. Tudo por baixo dos panos. Trailers invisíveis, votos sussurados, encenação dentro da encenação.
Uma grande sujeira, segundo ele, sem precedentes na história de Gotan City. E olha que Gotan City já tinha visto de tudo. Eu não soube o que responder. Em certos lugares, a realidade não pede opinião, só passagem.
Fiquei ali parado, enquanto ele chorava não pela guerra, pelo roteiro que continuava rodando sem diretor. Zelenski então se animou, como quem encontra um argumento no bolso do casaco errado. Parou de chorar por alguns segundos, o suficiente para discursar.
Reagan no Fundo do Palco
Disse que ninguém lembrava disso, ou fingia não lembrar. Ronald Reagan também foi ator. Não um grande ator, fez questão de frisar. Um ator sofrível, desses que erram o tom e acertam por engano. Ainda assim virou presidente dos Estados Unidos, governou com sorriso de cena final e ninguém nunca o acusou de continuar representando.
Zelenski falava com um ressentimento quase acadêmico. Disse que com ele era diferente. No caso dele todo mundo exigia coerência entre papel e realidade, como se o mundo tivesse decidido que alguns homens não podem sair do personagem.
Reagan pôde atravessar o palco e sentar-se na Casa Branca. Ele, não. Qualquer gesto seu era lido como roteiro e qualquer fala como ensaio. Depois voltou a chorar, agora com mais método.
Eu pensei em dizer algo conciliador, mas me contive. Em certos becos, a História não quer consolo, quer plateia. E eu já estava ali, cumprindo meu papel sem saber qual papel era esse.




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