top of page
Buscar

O medo sentado ao meu lado - ESTRANHOS CAMINHOS DE SANDRO E TIAGO

  • Foto do escritor: Paulo Pereira de Araujo
    Paulo Pereira de Araujo
  • 5 de fev.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 11 de fev.


Homem apavorado sentado no chão durante tiroteio noturno em território curdo na Síria, em cena de guerra em estilo graphic novel preto e branco.


Madrugada de Resistência em Território Curdo


Nas mãos, armas antigas, algumas munições, o peso pesado da responsabilidade que não pedi. Fico sabendo que são curdos, o maior povo sem país do mundo, na Turquia, na Síria e em menor escala no Iraque e no Irã.


Como Vim Parar

Aqui?


Ao meu lado uma jovem que fala inglês, tentando me acalmar, tentando explicar o que é isso. Tudo se mistura. Noite, cheiro de pólvora e o frio que atravessa a roupa e a alma. Eles estão em posição. Homens, mulheres e até crianças pequenas segurando armas.


Cada olhar é um aviso, cada gesto é parte de uma dança que aprendi a temer e respeitar ao mesmo tempo. “Eles não recuam”, a jovem me disse, e eu só consigo imaginar como a coragem pode se transformar em resistência quando a vida não deixa escolha.


Então começa. Tiros cortam o ar, secos e incessantes. Gritos. Corpos caem, alguns não se levantam. O cheiro de sangue e de terra revolta meu estômago. Quero vomitar, gritar, correr, mas meus pés não obedecem.


Vejo mãos trêmulas, rostos ensanguentados, mas ninguém desiste. Cada um encontra seu lugar, cada um protege seu pedaço de chão. Eles gritam ordens em línguas que não entendo, mas o sentido é claro: não se rendam!


A jovem percebe meu tremor e se aproxima, segura meu braço. Sinto a pressão da mão dela, firme, quase quente no meio da morte que nos rodeia. Ela me diz que em poucas horas o caminhão sairá em busca de alimentos e armas.


Você pode ser deixado na cidade mais próxima. Vai conseguir sair. Ela fala devagar, e eu só consigo assentar. Não há palavras que sirvam para traduzir o que vejo.


Os tiros continuam, a madrugada parece não terminar. Vejo feridos sendo erguidos por outros, vejo crianças recuarem e avançarem ao mesmo tempo. E ainda assim, ninguém desiste. A força deles é absurda, quase cruel na beleza de sua resistência.


Não há heroísmo teatral, só sobrevivência e coragem pura e crua. E eu, que pensei que sabia algo sobre guerra, fico parado, vergado pelo medo e pela vergonha de estar vivo, observando como pessoas comuns se tornam muralhas humanas.


Fim do

Pesadelo


Os invasores finalmente já fugiram. É hora de contar mortos e feridos. O sol finalmente rasga o céu. O silêncio pesa, pesado como chumbo. Mas há algo que permanece: o fio invisível da resistência, da força que se recusa a dobrar-se.


Eu, ainda com o coração em tumulto, percebo que aquelas pessoas me ensinaram mais do que qualquer instrução ou mapa poderia ensinar. Coragem não é ausência de medo, é a recusa em se entregar, mesmo quando tudo parece perdido.


Rota de

Fuga


Chego num pequeno povoado. Saí da zona de perigo, mas não sei como sair daqui. Sair da Síria. Fico na beira da estrada, aguardando não sei o quê porque o local é completamente deserto.


Depois de duas longas horas, vejo um carro se aproximando. Uma Mercedes velha e suja que para logo a minha frente. No interior quatro homens. Um deles abre a porta traseira e faz sinal para que eu entre. Não tenho escolha. Entro...



 
 
 

Comentários


bottom of page