Capítulo X Sem Título - ESTRANHOS CAMINHOS DE SANDRO E TIAGO
- Paulo Pereira de Araujo

- 15 de jan.
- 1 min de leitura
Atualizado: 25 de jan.

Nasci Antes de Mim Mesmo
Sempre me perguntam quando nasci, mas essa pergunta parte de um equívoco. Eu não nasci, fui acusado.
No começo, nem nome eu tinha, e isso funcionava melhor.
As coisas não se encaixavam, frases ficavam incompletas, regras simplesmente não existiam e ninguém se incomodava. Tudo seguia bem até o momento em que alguém apontou o dedo e disse: “isso não faz sentido”.
Foi assim que passei a existir oficialmente. Ganhei um nome estrangeiro, pronúncia incerta e uma reputação péssima. Nunca fui descrição; virei acusação.
Quando algo dava errado ou ninguém entendia, eu era o culpado. Curiosamente, quando tudo funcionava mal de maneira organizada, o mérito sempre era da Razão.
Não sou desorganizado, tenho método. Apenas não me dou bem com expectativas alheias nem com regras excessivamente explicadas. Quando insistem demais, eu me retiro.
Durante muito tempo, fui tolerado apenas em espaços controlados: quartos de criança, livros ilustrados e conversas que não iam adiante. Filosofias fingiam que eu não existia, sistemas me tratavam como falha, professores me usavam como ameaça. Nunca prometi clareza nem utilidade.
Houve um período em que tentei ser mais acessível e aceitei ser engraçado. Foi um erro. Meu humor é defensivo. Crianças me entendem melhor porque não me explicam, apenas me aceitam.
Adultos exigem sentido e, quando não apresento, me chamam de inútil. Talvez eu seja. Mas objetos inúteis são mais livres. Ideias inúteis duram mais. Não sou erro. O erro quer desaparecer. Eu persisto.




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