Capítulo WVIIICM - Reflexo no Vidro Sujo - ESTRANHOS CAMINHOS DE SANDRO E TIAGO
- Paulo Pereira de Araujo

- 23 de jan.
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Atualizado: há 2 dias

A estrada não tinha nome. Ou tinha, mas nenhum de nós se deu ao trabalho de procurar a placa. Era uma estrada secundária, dessas que cortam o interior sem pressa, comuns em viagens de carro que não obedecem a mapas nem a destinos claros.
Entre o Volante e o Silêncio
Eu dirigia com as duas mãos firmes no volante, como se aquilo fosse um argumento. Tiago, no banco do passageiro, observava o mundo passar com a atenção dispersa de quem está acordado apenas pela metade.
Havia algo de artificial naquele silêncio. Não era conforto. Também não era briga. Era uma pausa mal resolvida, dessas que se instalam quando duas pessoas já disseram quase tudo e justamente por isso não sabem mais por onde recomeçar.
— Você já reparou — disse Tiago, quebrando nosso acordo tácito de não falar — que toda estrada parece prometer mais do que entrega?
Eu não respondi de imediato. Reduzi a marcha, não por necessidade, só para ganhar tempo. O motor respondeu com um som baixo, quase íntimo.
— Acho que isso vale pra quase tudo — disse enfim. — Pessoas incluídas.
Tiago sorriu, mas não virou o rosto. Preferiu manter os olhos no campo aberto, nas cercas tortas e nos bois imóveis como se tivessem sido colocados ali apenas para compor a paisagem rural.
Era o tipo de cenário que aparece em relatos de viagem, mas que raramente diz algo a quem passa por ele depressa demais.
— Quando a gente saiu, achei que ia ser diferente — ele continuou. — Não melhor. Só diferente.
— Diferente como? — perguntei, agora sim olhando de relance.
— Menos… explicativo. Menos essa sensação de que estamos sempre justificando alguma coisa.
Pensei em responder, mas o pensamento travou num ponto incômodo: ele não sabia exatamente o que estava justificando desde o início da viagem. A saída? A companhia? O silêncio entre dois homens que se conheciam mais pelo que evitaram dizer do que pelo que foi dito?
Paramos num posto antigo, desses que parecem sobreviver mais por teimosia do que por movimento. Um posto de gasolina à beira da estrada, quase fora do tempo.
O frentista, um homem magro, com um boné desbotado e um olhar que não perguntava nada além do essencial. Desci para abastecer. Tiago ficou no carro, observando o reflexo do próprio rosto no vidro sujo.
Havia algo naquele reflexo que não combinava mais com as histórias que ele contava sobre si mesmo, como se a viagem estivesse desmontando versões antigas. Quando voltei, trouxe dois cafés em copos de isopor.
— Não perguntei se você queria — disse, quase me desculpando.
— Fez bem. Se perguntasse, eu ia dizer que não — respondeu Tiago, aceitando o café.
Bebemos em silêncio, encostados no carro. O vento era fraco, mas constante. Um vento que não empurrava nem acolhia, apenas passava, como tantas conversas interrompidas ao longo da vida.
— Você já pensou em voltar? — perguntou Tiago, sem me olhar.
— Voltar pra onde?
— Exatamente.
Soltei um riso curto. Não havia ironia ali, apenas cansaço, aquele cansaço típico de quem revisita o passado e percebe que ele não está mais disponível.
— Acho que a gente romantiza demais a ideia de retorno — disse. — Como se houvesse um lugar intacto esperando a nossa versão antiga.
— E não há?
— Se há, não reconheceria a gente. Nem nós a ele.
Tiago assentiu. Aquilo fazia sentido demais para ser reconfortante.
Voltamos ao carro. A estrada seguiu igual, indiferente à pequena epifania de posto de gasolina.
Mas algo tinha mudado. Não fora, dentro. Um deslocamento mínimo, quase imperceptível, como quando um objeto sai do lugar na estante e você só percebe dias depois, ao tentar lembrar quando tudo começou a sair do eixo.
— Sandro — disse Tiago, depois de muitos quilômetros — você acha que a gente está indo junto ou só na mesma direção?
A pergunta ficou suspensa, ocupando o espaço entre os dois bancos, o painel e o retrovisor. Senti o peso dela como se fosse algo físico, quase um obstáculo invisível na estrada.
— Não sei — respondi. — Mas sei que não é a mesma coisa.
— E isso te assusta?
Pensei. Pensei de verdade, o que não fazia há algum tempo.
— Não. O que me assusta é fingir que é.
Tiago fechou os olhos por um instante. Não para dormir, só para aceitar. Às vezes aceitar era o máximo de movimento possível em uma jornada que não prometia chegada.
O sol começava a cair, alongando sombras e tornando tudo um pouco menos nítido. A estrada seguia. Nós também. Não porque sabíamos onde iríamos chegar, mas porque parar, naquele ponto exato, seria uma resposta e nenhum de nós ainda estava pronto para isso.
Acelerei levemente. Tiago abriu o vidro. O ar entrou, bagunçando pensamentos e desfazendo certezas provisórias. Os estranhos caminhos continuavam. Pela primeira vez desde o início da viagem, isso não parecia um problema a ser resolvido, mas um estado a ser atravessado.
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