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Capítulo Quase Censurado - ESTRANHOS CAMINHOS DE SANDRO E TIAGO

  • Foto do escritor: Paulo Pereira de Araujo
    Paulo Pereira de Araujo
  • 25 de jan.
  • 2 min de leitura
Imagem que mostra homens armados descendo uma colina e atirando em pessos em Sarajevo
A diferença fundamental entre margarina e manteiga

Vista privilegiada


Eu estava em Munique quando peguei um táxi sem muita convicção. Disse apenas o nome da cidade e deixei que o motorista entendesse o resto. Há viagens que começam assim, não por desejo e sim por cansaço de ficar.


Desci nos arredores de Sarajevo. Não na cidade propriamente dita, mas num ponto alto, onde o relevo ainda parece indeciso entre se proteger ou se expor. O ar tinha aquela quietude estranha que não é paz. É pausa. Foi então que notei a movimentação na colina.


Uma van escura estacionou. Dela desceram homens armados, organizados demais para parecer improviso. Nenhum falava alto. Havia ali um silêncio funcional, quase profissional. Um deles, sem arma, começou a conduzi-los como um guia. Não explicava nada, apenas indicava o caminho.


Segui a uma distância curta, suficiente para não parecer curioso demais, nem distante a ponto de perder algo. Subimos até um ponto da colina de onde se via a cidade inteira.


Sarajevo se abria abaixo de nós com uma beleza que constrangia. Prédios, ruas e gente andando. Tudo normal demais para justificar aquela concentração de homens com rifles.


No começo, achei que fosse treinamento. Ou alguma encenação tardia da guerra, dessas que insistem em continuar depois do fim. Até ouvir o primeiro disparo.


Não foi um som cinematográfico. Foi seco. Definitivo. Depois outro. E outro.

Olhei na direção indicada pelas armas e demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Pessoas corriam desesperadas. Homens, mulheres, crianças e idosos. Não havia linha de frente, não havia alvo estratégico. Havia apenas gente tentando não morrer.


Os homens ao meu redor atiravam com calma. Alguns ajustavam a mira. Outros comentavam algo baixo, coisas técnicas de caçadas, tipo safari sem animais. O guia observava satisfeito, como quem garante que a experiência corresponda ao prometido.


Foi nesse momento que entendi. A compreensão veio sem qualquer elevação moral, apenas como um dado bruto. Aquilo não era guerra. Era outra coisa. Eles não estavam ali para vencer, defender ou resistir. Estavam ali para participar sem risco. Para transformar a cidade em cenário de safari fora da África.


O choque não foi só o sangue. Foi a lógica. Alguém tinha organizado aquilo. Alguém tinha vendido aquilo. Alguém tinha chamado aquilo de alguma coisa aceitável o suficiente para que homens comuns segurassem rifles e atirassem em desconhecidos como quem cumpre um roteiro.


Afastei-me devagar. Não por medo de ser visto, mas porque não havia mais nada a ver ali. A colina continuava cheia. A cidade continuava abaixo.


E o mundo, mais uma vez, mostrava que consegue funcionar mesmo quando tudo já deu errado.


Desci sem olhar para trás. Alguns caminhos não pedem reflexão imediata. Eles se instalam depois, como um ruído persistente, lembrando que há lugares onde a humanidade não foi extinta, foi apenas temporariamente suspensa.


E sempre há quem pague por isso.



 
 
 

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