Capítulo Meio Vago - O Céu Antes do Barulho - ESTRANHOS CAMINHOS DE SANDRO E TIAGO
- Paulo Pereira de Araujo

- há 3 dias
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Nada Explode por aqui. Ainda...
O motor do ônibus cortou a madrugada. Um som pesado, rouco, que parecia rasgar a escuridão da mata . Eu me escondi atrás de um barranco, entre pedras e capim molhado. O corpo decidiu antes da mente.
Portas se abriram com força. Eram gritos e empurrões. O chão tremeu com os corpos sendo jogados para fora. Não eram homens nem mulheres. Eram rapazes. Pequenos, nus, machucados e tremendo.
Os policiais riam baixo, conversando como se aquilo fosse rotina. Um chute aqui, uma pancada acolá. Nada que chamasse atenção de quem estivesse do lado de fora.
O ônibus parou por alguns instantes, depois acelerou, sumindo na curva da estrada, deixando poeira, lama e silêncio. Não me movi. O vento trazia cheiro de diesel, terra e sangue seco. Uma trilha de sobrevivência e medo que eu só podia observar.
O sol já tinha subido quando consegui me mexer. Ficar ali começou a parecer outra forma de violência. A estrada estava vazia, só marca de pneu, barro mexido e silêncio. Desci do barranco devagar. No meio da estrada ainda estavam algumas roupas, molhadas, sujas e pequenas demais. Não toquei.
Mais à frente, caída no mato alto, uma folha de jornal bateu na minha perna e grudou na lama. Puxei pelo canto. Página interna, manchete cortada e foto borrada de homens de terno.
Junho
de 1974
Palavras sobre ordem, governo e segurança. No topo, a data: três dias antes. 1974. Olhei para o número como se ele me olhasse de volta. Soltei o jornal. O vento o levou. Talvez fosse melhor assim. Algumas coisas ficam mais verdadeiras quando ninguém tenta guardar.
O vento passava pelo mato e fazia som de coisa sussurrando. Se existisse memória presa no ar, ia ficar ali por muito tempo. Ninguém iria contar essa história direito. Ninguém iria saber os nomes daqueles garotos, saber quem chorou, quem riu e quem tentou correr.
Eu senti uma raiva seca. Foi ali que entendi. Não como ideia, como sensação física. A muiraquitã não era proteção, arma ou guia. Era testemunha. Ela não impede, não salva e não muda.
Obriga alguém a ver. Talvez o erro tenha sido meu, achando que carregá-la significava poder. Talvez só significasse não poder desviar o olhar.
Fiquei parado no meio da estrada por mais alguns minutos. Depois comecei a andar. Sem saber para onde, sem saber onde estava e sem saber se ainda era eu. Mas andando.
A Muiraquitã Como Testemunha
Antes de entrar na curva da estrada, olhei para trás uma última vez. Não havia mais nada ali. E ainda assim, parecia que tinha tudo. Levei a mão ao bolso vazio. Pela última vez. Não senti pânico, nem perda e nem urgência.
Só uma certeza incômoda: se a muiraquitã ainda existisse, não estaria perdida. Estaria fazendo o que nasceu para fazer.
Continuei andando. Passo lento, medido, como se cada movimento deixasse marca invisível no tempo. O vento mudou, trazendo um som distante, metálico e irregular, lembrando dores que eu ainda não tinha sentido.
Era o mesmo som que, no futuro, me levaria a outro céu em chamas, outro chão tremendo e outra cidade onde o medo se manifestaria de forma diferente, mas igual na intensidade.
Continuei andando. Sem olhar para trás, mas o que carregava ainda me seguiria, invisível e indestrutível. Pela primeira vez desde que tudo começou, senti que algo estava prestes a me encontrar de novo. Em outro tempo. Em outro lugar.

Buenos Aires...




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