Capítulo Sem Anestesia - ESTRANHOS CAMINHOS DE SANDRO E TIAGO
- Paulo Pereira de Araujo

- há 7 dias
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Descemos do ônibus antes do ponto final. Não foi decisão, foi incômodo. O corpo reconheceu alguma coisa antes da cabeça.
A rua era limpa demais, larga demais e com aquele silêncio organizado que escolas caras costumam produzir fora do horário de entrada. Tiago veio atrás, sem perguntar.
O colégio ocupava quase um quarteirão inteiro. Grades altas, portão automático, uma bandeira que não tremulava. Nada ali parecia preparado para lidar com um cachorro.
Vimos os rapazes primeiro. Três, talvez quatro. Uniformes ainda no corpo, mas já usados de outro jeito, como se a roupa não tivesse mais função.
Um deles segurava algo pequeno, outro ria alto demais. O terceiro olhava para os lados. Quando perceberam o porteiro com o celular levantado, a coisa mudou de forma.
Não houve susto. Houve cálculo.
Os rapazes se aproximaram do porteiro com rapidez demais para ser curiosidade. Um passo curto, outro mais decidido.
A intenção era clara, quase profissional: arrancar o celular, apagar o registro e devolver o mundo ao seu estado natural de esquecimento.
Foi nesse instante que aparecemos. Não como barreira heroica, mas como presença inesperada. Dois corpos a mais bagunçando a conta. Nada foi dito. Não precisou.
Eles correram. Não tropeçaram e não hesitaram. Correram como quem já correu outras vezes e sabe que, no fim, alguém vai resolver por eles.
O cachorro estava no chão, um pouco afastado do portão. Parecia menor do que deveria ser. Não se mexia. Havia sangue, mas o que chamava atenção eram os pregos. Não muitos. O suficiente para que a cena não pudesse ser confundida com acidente.
O porteiro baixou o celular devagar. A mão tremia, mas não soltava o aparelho.
Eu filmei — disse, como quem pede desculpa. — Se eu não filmasse, ninguém ia acreditar.
Tiago não se aproximou do cachorro. Eu dei dois passos e parei. Não havia nada a fazer ali. O cachorro já tinha passado para outro estado, um em que a ajuda chega sempre tarde.
— Eles fizeram isso rindo — disse o porteiro. — Rindo mesmo. Como se fosse uma brincadeira.
Ele mostrou o vídeo. Ninguém pediu. As imagens eram ruins, tremidas, mal enquadradas. Ainda assim, não deixavam dúvida. Não era raiva, não era impulso. Era método. Pregos entrando devagar, escolhendo lugar.
— Vou levar pra polícia — disse o porteiro, já sabendo da própria ingenuidade. — Mas não vai dar em nada. Eles são filhos de gente grande daqui. Quem vai se complicar sou eu.
Perguntei por quê. O porteiro sorriu sem humor.
— Porque eu mexi com quem não devia. Porque filmei. Porque não fiz o que todo mundo faz.
Tiago olhou para o colégio. Tudo continuava igual. Nenhuma janela aberta, nenhuma movimentação. O prédio parecia intacto, como se o que tivesse acontecido fosse do lado de fora da jurisdição moral dele.
— Eles vão dizer que eu provoquei — continuou o porteiro. — Que não era problema meu. Que cachorro de rua não é assunto de escola.
Ele guardou o celular no bolso como quem esconde uma arma defeituosa. — Mas eu não vou apagar isso — disse. — Nem que eu perca o emprego.
Ficamos ali mais um pouco, sem saber exatamente o que fazer com o corpo do cachorro, com o vídeo e com aquela rua limpa demais. Depois, nada aconteceu.
Como quase sempre.
Quando nos afastamos, o porteiro ainda estava lá, parado, segurando um turno que talvez fosse o último.
O colégio seguiu inteiro.
O caminho, não.

Procedimento Padrão
Eu estava no corredor errado. Isso acontece muito comigo, entro num lugar achando que é passagem e descubro que é escuta. O banco de plástico era duro, o café intragável. O hospital respirava aquele ar de coisa que nunca dorme, só pisca.
Dois técnicos de enfermagem pararam perto da porta de serviço. Não cochichavam. Falavam como quem comenta escala de trabalho.
— Mais um hoje e eu apago — disse o primeiro. — Quatro noites seguidas, isso não é humano.
— Aqui ninguém quer humano — respondeu o outro. — Querem alguém que aguente.
Não se me viram. Fingi olhar o celular. O truque é não parecer atento.
— O paciente do leito 312 já tá no limite — disse o segundo.
— Organismo cansado ajuda. — Melhor assim. Nada que não esteja no corpo dele.
Essa frase me fisgou. Procedimento padrão.
— Soro com reforço — continuou o primeiro. — Um empurrãozinho de coisa que o exame nem acusa. — Potássio, insulina…
— O corpo reconhece como velho conhecido. Substâncias que podem estar no organismo.
Falavam sem horror, sem pressa. Como quem resolve logística.
— Depois vem o laudo bonito — disse o segundo. — Parada cardíaca. Idade. Histórico. Essas coisas todas.
— Natural — completou o primeiro. — A palavra resolve tudo.
Houve silêncio. Não o silêncio da culpa. O silêncio de quem faz conta. Mais um antes do amanhecer.
— Se a gente fosse menos explorado, talvez não precisasse disso — disse o primeiro.
— Talvez — respondeu o outro. — Mas amanhã tem mais doze. Ninguém vai segurar nossa mão.
Eles saíram andando pelo corredor como funcionários exemplares. Fiquei sozinho, com a sensação de ter ouvido o funcionamento interno de uma engrenagem que não foi feita para parar. Tirei o caderno do bolso.
Anotei palavras soltas: potássio, natural, plantão.
Pensei em Sandro. Pensei em polícia. Pensei na inutilidade de qualquer pensamento. Foi quando acordei.
Sentei na cama de uma vez, o coração disparado, o quarto escuro demais para um hospital e silencioso demais para a morte.
O caderno estava na mesa, fechado. Nenhum cheiro de desinfetante. Nenhum banco de plástico. Só o ventilador velho e o barulho distante da rua.
Demorei alguns segundos para aceitar que tinha sido um sonho.
Mas não um sonho absurdo. Pior. Era um sonho organizado, técnico e plausível demais. Um sonho que respeitava protocolos. Levantei, fui até a janela e respirei fundo.
Disse em voz baixa, como quem faz promessa ou reza torta: que isso só aconteça enquanto eu durmo. E mesmo acordado, tive dificuldade de acreditar.




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