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Suíça - Neutralidade ou a Arte de Não Escolher -QUE PAÍS É ESTE?

  • Foto do escritor: Paulo Pereira de Araujo
    Paulo Pereira de Araujo
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

Quadro que mostra a neutralidade suíca face ao mundo em guerra
Neutralidade em Azul: A Suíça e o Negócio da História

A Neutralidade Como Método


A Suíça é o país que decidiu não participar da história. Justamente por isso, acabou se tornando indispensável a ela. No coração da Europa, enquanto os outros gritavam ideologias, marchavam exércitos e enterravam gerações inteiras, a Suíça mantinha as janelas fechadas, os cofres abertos e a consciência cuidadosamente organizada em prateleiras.


Chamou isso de neutralidade suíça. Funcionou tão bem que virou marca registrada, quase um selo de qualidade institucional. Neutralidade, aqui, nunca foi virtude moral. Foi estratégia geopolítica. Um modo eficiente de atravessar séculos, guerras mundiais e disputas internacionais sem precisar escolher lados, apenas clientes.


A Suíça não dispara tiros, mas financia quem dispara. Seus bancos sempre souberam ler o mundo como planilha. Não assina tratados inflamados, redige contratos impecáveis. Não levanta bandeiras, levanta juros.


Enquanto o mundo sangrava, da Primeira à Segunda Guerra Mundial, ela calculava. E sempre fechava a conta no azul, protegida por sigilo bancário e estabilidade econômica.


A paisagem ajuda a sustentar a farsa civilizada. Montanhas imponentes, lagos límpidos e vilarejos que parecem maquetes de ordem. Tudo transmite equilíbrio, segurança e previsibilidade. Até o turismo vende essa ideia de país organizado, neutro e confiável.


Até a natureza, ali, parece obedecer a regulamentos invisíveis. Nada cresce demais e nada desmorona de forma espetacular. A Suíça é o triunfo do controle, inclusive sobre o caos. Um país que administra até o imprevisto.


Os relógios suíços não são souvenir. São metáfora nacional. O tempo ali não corre, ele é administrado. Pontualidade não é hábito; é dogma cultural. Atraso soa quase como desvio moral. O país inteiro funciona como um mecanismo de precisão, onde cada peça sabe exatamente o seu lugar e raramente tenta ser outra coisa.


Isso se reflete na política suíça. Democracia direta, votações constantes, consultas populares e referendos. Tudo parece muito participativo, muito exemplar aos olhos estrangeiros. Mas a participação vem sem drama, sem paixão e sem ruptura.


Decide-se tudo com a mesma frieza com que se decide a cor de um formulário oficial. Emoção atrapalha. Paixão bagunça o sistema. A Suíça prefere cidadãos corretos a cidadãos ardentes, estabilidade a conflito e consenso a confronto.


O curioso é que se trata de um país multilíngue. Alemão, francês, italiano e romanche. Quatro línguas oficiais, quatro heranças culturais e quatro maneiras de nomear o mundo. Ainda assim, falta uma voz.


A Suíça fala, mas não se diz. Comunica-se, mas não se confessa. Talvez porque toda confissão implique culpa e a culpa, ali, foi terceirizada há muito tempo para arquivos, contas numeradas e notas técnicas.


Durante a Segunda Guerra Mundial, a neutralidade custou caro a outros e rendeu bem à Suíça. Ouro atravessou fronteiras, muitas vezes manchado de sangue. Contas foram abertas, identidades apagadas e passados arquivados com eficiência administrativa.


Tudo com descrição exemplar. Até hoje, o país lida com esse legado histórico como lida com tudo: comissões independentes, relatórios detalhados e notas de rodapé. Nunca com escândalo suficiente para abalar o sistema financeiro ou a política externa.


Dizem que a Suíça é um modelo de país. Eu desconfio profundamente de modelos. Modelos servem para serem copiados e quase nunca suportam a própria lógica fora do laboratório europeu.


Um país que funciona perfeitamente costuma fazê-lo às custas de algo que não aparece no folheto turístico. No caso suíço, esse algo é o risco. A Suíça aboliu o risco como quem elimina um vírus. Com isso, eliminou também certa ideia de aventura, de erro e de desvio histórico.


Mas talvez haja honestidade nisso. A Suíça nunca prometeu grandeza. Não vendeu epopeias nacionais. Não reivindicou destino manifesto nem messianismo político. Apenas sobreviveu, muito bem, diga-se, enquanto os outros se destruíam tentando ser maiores do que eram.


A Suíça não quer ser admirada. Quer ser respeitada. Ou, melhor ainda, necessária ao funcionamento do mundo. E conseguiu. No fim das contas, é um país que nos obriga a encarar uma pergunta incômoda da história contemporânea: é melhor sujar as mãos tentando mudar o mundo ou mantê-las limpas enquanto o mundo se suja sozinho?


A Suíça escolheu a segunda opção. E dorme tranquila. Eu, confesso, não sei se conseguiria.



 
 
 

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