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Bélgica, um País Criado Para Não Dar Certo - QUE PAÍS É ESTE? -

  • Foto do escritor: Paulo Pereira de Araujo
    Paulo Pereira de Araujo
  • 22 de jan.
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

A Bélgica aprendeu cedo que sobreviver é mais importante do que brilhar.
A Bélgica aprendeu cedo que sobreviver é mais importante do que brilhar.

A Bélgica é esse tipo de país que parece ter sido criado para não dar certo. Talvez por isso continue existindo. Pequena demais para impor respeito, complexa demais para ser ignorada.


Um território que nunca teve vocação para unanimidade e jamais demonstrou muito interesse em resolvê-la. Desde o início, a Bélgica nasceu como compromisso, e compromissos raramente produzem identidades claras.


Trata-se de um país dividido como uma herança mal resolvida. Flamengos de um lado, valões do outro. Línguas que não se misturam, memórias que não coincidem, ressentimentos que atravessam gerações com a discrição de quem já se acostumou a eles.


Bruxelas, no meio, faz o papel de capital e de equívoco: oficialmente de todos e intimamente de ninguém. Uma cidade que pertence mais às instituições do que aos habitantes.


Costumam dizer que a Bélgica é o coração da Europa. Sempre achei a metáfora generosa demais. O coração pulsa, impõe ritmo e reage ao esforço. A Bélgica não pulsa, hesita.


Se fosse um órgão, seria algo menos nobre e mais funcional, talvez um estômago. Digere conflitos, absorve impérios, processa contradições e segue funcionando enquanto outros entram em colapso.


A Bélgica já foi espanhola, austríaca, francesa, holandesa. Passou de mão em mão como objeto incômodo que ninguém queria segurar por muito tempo. Nunca foi centro de um grande projeto imperial, mas sempre esteve no caminho deles.


Território de passagem, de negociação e de guerra alheia. Aprendeu cedo que sobreviver é mais importante do que brilhar. Essa vocação para a ambiguidade aparece em tudo. O país inventou o surrealismo antes mesmo de saber que estava fazendo isso.


Magritte não pintava sonhos; pintava a desconfiança em relação às imagens. “Isto não é um cachimbo”, ele avisava, com a paciência de quem sabe que o problema não está no objeto, está na necessidade de acreditar nele.


A Bélgica inteira poderia ser resumida nessa frase: isto não é um país ou, pelo menos, não é no sentido confortável da palavra.


Mas há também o outro lado, aquele que costuma ser servido como cartão-postal. Chocolate refinado, cervejas artesanais com regras quase litúrgicas e waffles que tentam convencer o mundo de que doçura é identidade.


Tudo muito bem feito e muito bem embalado. Uma estética de conforto que ajuda a esquecer o que não combina com a vitrine. Porque a Bélgica também produziu horrores com método.


A Bélgica administrou, no Congo, um dos regimes coloniais mais brutais da história moderna. Milhões de mortos, mutilações sistemáticas e exploração organizada com eficiência europeia.


Durante muito tempo, tratou isso como nota de rodapé inconveniente. Ainda hoje, lida com o passado colonial com cuidado excessivo, como quem manuseia algo que pode manchar a toalha da sala.


Internamente, a política belga parece um exercício permanente de paciência. Governos demoram a se formar, coalizões se arrastam e crises são administradas até se tornarem rotina.


No entanto, tudo continua funcionando. Trens atrasam, mas chegam. Instituições rangem, mas não quebram. A Bélgica transformou o impasse em método de governo.


Talvez por isso seja o lugar ideal para sediar a União Europeia. Uma entidade que também não sabe exatamente o que é, nem para onde vai, mas insiste em existir por força da inércia e do medo do colapso.


Bruxelas abriga burocracias que tentam dar forma racional a um continente construído sobre ruínas. Não poderia ser em outro lugar.


A Bélgica não grita sua identidade. Murmura. Não exige amor, aceita tolerância. Não pede orgulho, contenta-se com funcionamento. É um país que parece ter entendido algo que os outros ainda resistem a aceitar: a coerência é superestimada.


Se alguém perguntar que país é este, a Bélgica não oferece resposta pronta. Ela devolve a pergunta em várias línguas, com expressões ligeiramente diferentes e nenhuma completamente satisfatória. Talvez seja isso que a mantenha viva.


Eu aceito a Bélgica como se aceita um silêncio constrangedor numa conversa longa. Não por admiração. Por cansaço. E porque, no fundo, desconfio de países que sabem exatamente quem são.



 

 
 
 

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