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Epiléptico, HQ de David B. - BARULHO IMPRESSO

  • Foto do escritor: Paulo Pereira de Araujo
    Paulo Pereira de Araujo
  • 6 de jan.
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 2 dias



Epiléptico, de David B.: o que não passa





Eu li Epiléptico., do David B. devagar e em silêncio, sem vontade de comentar com ninguém. Não é uma HQ que pede conversa. Ela pede silêncio e silêncio é uma coisa que quase sempre falta quando a família entra em cena.


O livro gira em torno da doença do irmão, mas a epilepsia ali não é só um diagnóstico. É uma presença. Um bicho que ocupa a casa, o corpo, os sonhos, a infância inteira. Nada é superado, nada é resolvido. As crises voltam. A culpa também.



O medo reaparece com outro desenho, outro nome, mas a mesma sensação de impotência. A repetição foi o que mais chamou minha atenção. A vida não como arco, como círculo torto.


O traço do David B. não tenta agradar. É pesado, simbólico, às vezes sufocante. As figuras parecem presas dentro de si mesmas. Não há realismo reconfortante. A imagem não ilustra o texto, ela pensa. Às vezes melhor do que o texto conseguiria. E é aí que Epiléptico se impõe como literatura: quando a forma carrega aquilo que as palavras não dão conta.


A família aparece como um território instável. Todos tentam ajudar, todos falham um pouco. Os pais buscam curas, crenças, métodos. O irmão saudável observa, absorve, desenha. Ninguém é vilão. Ninguém é herói. Só gente tentando sobreviver àquilo que não entende.


Desenhar para permanecer


Isso me interessa mais do que qualquer narrativa de redenção. Não há lição no fim. O livro não ensina a lidar com a dor. Ele mostra que a dor permanece, muda de figura e se infiltra. Crescer não significa vencer o monstro e sim aprender a conviver com ele sem fingir que ele não existe.


Ilustração em preto e branco de uma figura desenhando enquanto uma massa escura se aproxima ao redor, criando sensação de tensão e isolamento.

Talvez por isso, Epiléptico incomode tanto. Não oferece distância segura. Não explica. Não consola. Só fica. Como certas histórias familiares que a gente carrega sem saber muito bem onde guardar.


Chamar Epiléptico de HQ é pouco. É um livro sobre aquilo que não passa. E sobre como, às vezes, desenhar é a única maneira de não ser engolido.


 
 
 

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