

Senhora Soledá
Conversas de um escritor idoso com seu cãozinho fiel e com o invasor do seu cérebro


Clarice
Minha mãe era presença. Não precisava explicar nada. Fazia café, ouvia música baixa, me olhava como quem entende. Depois que ela morreu, a casa virou eco. Meu pai ficou mais dentro da cabeça. Eu fiquei mais fora de tudo. Minha mãe era o chão. Quando caiu, ninguém segurou.
Horácio
Meu pai fala demais com a cabeça e de menos com a boca. Sempre esteve ali, mas meio longe. Cheio de livro, cheio de ideia, vazio de conversa. Aprendi cedo que silêncio também pesa. Hoje a gente se esbarra mais do que se encontra, mas ainda é pai. Isso não some.

Botox
Botox é o único que não cobra nada. Não pergunta, não julga, não espera melhora. Fica. Às vezes acho que ele entende mais do que todo mundo junto. Meu pai conversa com ele como se fosse gente. Talvez seja. Em casa, é quem mais escuta sem interromper.
Bianca
Minha irmã sempre soube quem era. Isso incomodou muita gente, menos ela. Saiu de casa antes de mim, mas nunca fugiu. É firme, prática, resolve. Às vezes parece dura, mas é só defesa. Entre nós, nunca teve teatro. A gente se entende sem discurso.

Anselmo
Anselmo fala mal de tudo, inclusive dele mesmo. Gosto disso. Não finge. Escreve e esconde, como se tivesse vergonha do que pensa. Quando aparece lá em casa, o clima muda. Menos pose, mais verdade. Se tivesse publicado, talvez tivesse se perdido. Assim, ficou inteiro.


Luciana
Luciana entra nos lugares como se já soubesse onde pisa. Fala firme, sem pedir confirmação. Às vezes me deixa meio sem saber como reagir, como se eu estivesse sempre um passo atrás. É organizada demais, segura demais. Não sei se é o jeito ou se sou eu que fico travado perto dela.

Laura
Laura tem um silêncio que incomoda. Observa tudo, parece sacar as coisas antes dos outros. Às vezes acho que ela me lê fácil demais. Não sei se confio. Não faz nada errado, mas também não facilita. Gente jovem assim, tão certa de si, sempre me deixa meio em alerta, sem motivo claro.
Às vezes eu escuto meu pai falando sozinho, com o cachorro ou com ninguém, que dá no mesmo. No começo achei que fosse coisa da idade, mania antiga, tipo quem conversa com planta. Depois passei a pegar uns pedaços de conversa dele com o Anselmo e comecei a estranhar mais.
Ele dá nome pra tudo. Solidão vira mulher, morte vira senhora. Senhora isso, senhora aquilo. Parece que ele mora num lugar onde as coisas ganham rosto só pra não ficarem vazias. Eu acho estranho. Não sei se acho bonito ou só estranho mesmo.
Meu pai sempre foi meio fora do tempo, meio fora da sala. Às vezes parece viver num mundo paralelo. Já pensei em fazer uma HQ sobre a família, não pra explicar nada, mas pra provocar.
Desenhar a casa, os silêncios, os agregados, e chamar de Senhora Soledá. Só pra ver a cara dele. Um espelho. Um jeito de cutucar e ver se o mundo dele faz barulho quando alguém bate na porta.