Áustria. Memória, Silêncio e Estética do Passado - QUE PAÍS É ESTE?
- Paulo Pereira de Araujo

- 22 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 6 dias

A Áustria é um país que aprendeu a conviver com o próprio passado como quem convive com um parente inconveniente: não o expulsa de casa, mas evita mencioná-lo nas refeições. Prefere música.
Prefere arquitetura. Prefere silêncio bem-educado. O silêncio, aliás, é uma de suas grandes especialidades, não o silêncio constrangido, mas o silêncio treinado, socialmente aceitável e quase elegante.
Durante séculos, a Áustria foi centro. Um centro administrativo, elegante, eficiente. Um lugar onde o poder se exercia mais por formulários do que por gestos teatrais.
O Império Austro-Húngaro não caiu em ruína espetacular; dissolveu-se lentamente, como algo que ninguém mais conseguia sustentar, mas que também ninguém queria admitir como morto.
Não houve catarse, apenas esvaziamento. O fim chegou como chegam as coisas bem organizadas: sem alarde, sem confissão pública.
Hoje, o país parece pequeno demais para a memória que carrega. Viena continua bela, funcional e organizada. Cafés com mesas de mármore, concertos pontuais, e uma sensação constante de continuidade. Tudo sugere que nada realmente terminou.
Tudo sugere que o passado foi apenas rearranjado, deslocado de lugar, encaixado em vitrines e programações culturais. A cidade funciona como se tivesse aprendido que a melhor forma de sobreviver à história é mantê-la ocupada com compromissos estéticos.
A Áustria gosta de se apresentar como berço da cultura europeia. E não mente. Produziu música, filosofia, literatura, psicanálise. Freud não nasceu ali por acaso. Há algo no país que favorece a introspecção e também a racionalização. Pensar, analisar, interpretar, decompor: tudo isso faz parte do método austríaco.
O problema começa quando pensar demais se transforma em estratégia para adiar responsabilidades. Quando a análise substitui a decisão. Quando compreender vira uma forma sofisticada de não agir.
Porque foi ali, também, que nasceu Adolf Hitler. E a Áustria passou décadas tratando esse fato como um acidente biográfico, quase um detalhe administrativo. Hitler seria alemão por escolha, austríaco apenas por registro. Uma solução elegante demais para um problema moral grande demais.
O nascimento é minimizado, deslocado e relativizado. Como se a geografia pudesse ser corrigida retroativamente por meio de explicações bem formuladas.
Durante muito tempo, a Áustria preferiu o papel de vítima da história, não de participante. Como se tivesse sido apenas anexada, levada pelas circunstâncias, empurrada para dentro do século XX contra a própria vontade.
Essa narrativa funcionou bem. Era confortável. Evitava perguntas difíceis sobre adesão, entusiasmo e continuidade. Evitava, sobretudo, a constatação de que regimes não se sustentam apenas por imposição externa, sustentam-se por colaborações internas, silenciosas e cotidianas.
A introspecção austríaca, quando não encontra responsabilidade, vira estética. O passado é preservado como cenário. O império vira decoração. A história vira trilha sonora.
O desconforto é cuidadosamente mantido fora do salão principal. Conserva-se tudo, menos a culpa. Museus impecáveis, memoriais bem sinalizados e discursos cuidadosamente calibrados. Tudo muito correto. Tudo muito controlado.
Politicamente, o país cultiva a moderação como virtude suprema. Nada muito radical, nada muito ruidoso. O discurso é sempre limpo, razoável e civilizado. A Áustria acredita profundamente na forma.
Talvez mais do que na ética. A forma organiza o que a ética deixou em suspenso. A aparência de estabilidade funciona como argumento suficiente. Se tudo parece funcionar, por que mexer?
Ainda assim, a Áustria não é falsa. É coerente com o próprio método. Nunca prometeu redenção. Apenas estabilidade. Nunca se ofereceu como exemplo moral, apenas como lugar onde as coisas funcionam, apesar de tudo. Essa honestidade limitada é, paradoxalmente, uma de suas características mais consistentes.
Se a Bélgica hesita e a Suíça calcula, a Áustria recorda. Mas recorda com filtro. Com moldura. Com música de fundo. Lembra o suficiente para não ser acusada de esquecimento, nunca o bastante para permitir que a memória desorganize o presente.
A pergunta “que país é este?” encontra na Áustria uma resposta educada, evasiva e cuidadosamente construída. Um país que prefere tocar Mozart quando a história ameaça falar alto demais. E que confia, talvez em excesso, que o tempo, bem administrado, bem distribuído e bem decorado, resolve quase tudo.
Quase.




Comentários