Litera, o quê? Lego

Ele chama de LITERALEGO, um nome moderno demais pra um método caótico. Paulo Drama escreve como quem derruba uma caixa de peças no chão e finge que aquilo é plano.
Não começa pelo começo. Começo é superstição de otimista. Ele escreve blocos: cenas, espasmos, e ideias soltas, como um filme sem claquete, sem roteiro e quase sempre sem juízo.
Esses fragmentos nascem livres até chegarem ao inferno do corte e da montagem, quando o autor vira carrasco de si mesmo. Foram cerca de 700 blocos! Agora ele tenta salvar o que presta e eliminar o resto pelo bem da humanidade.

SENHORA SOLEDÁ está sendo construído como um
longa-metragem meio torto, desses que não explicam tudo, não entregam respostas prontas e ainda deixam o leitor levemente desconfortável, mas atento, curioso e desconfiado, como convém.
Não é um livro feito pra guiar pela mão, e sim pra empurrar o leitor pra dentro de uma mente em funcionamento, com seus desvios, interrupções e obsessões.
A obra é dividida em três partes bem distintas, embora nunca totalmente separadas. A primeira carrega o espírito de Macunaíma: ironia constante, humor crítico e uma identidade instável, que escapa sempre que parece definida.
A segunda mergulha no território de Clarice Lispector, onde o pensamento pesa mais que a ação, o silêncio diz tanto quanto as palavras e a consciência se dobra sobre si mesma.
A terceira parte bebe diretamente em Nelson Rodrigues, porque culpa, desejo, contradição e escândalo continuam sendo combustíveis eficientes pra vida e pra literatura.
