top of page
Buscar

COMÉRCIO DE ESCRAVOS (SÉC. XV–XIX)

  • Foto do escritor: Paulo Pereira de Araujo
    Paulo Pereira de Araujo
  • 24 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 25 de dez. de 2025


SÉCULO XV (1400–1499) — O INÍCIO DA ENGENHARIA DA MORTE

Contexto: Portugal inicia a exploração da costa africana. Ainda não existe o tráfico atlântico em larga escala, mas ele está sendo planejado.


Características dos navios no período:

  • Caravelas e naus pequenas, adaptadas improvisadamente.

  • O “transporte humano” ainda não era sistematizado.

  • Os primeiros africanos escravizados são levados para Portugal, não diretamente para o Brasil (que ainda não existia para os portugueses).


Regiões de captura predominantes:

  • Costa da Guiné: Wolof, Mandinga, Fula.


Importância para o romance:Mostra o surgimento da lógica comercial — a transformação deliberada de pessoas em mercadoria.


SÉCULO XVI (1500–1599) — O TRÁFICO SE TORNA SISTEMA

Contexto: A colonização portuguesa do Brasil começa; a mão de obra indígena se revela insuficiente para o plano escravista; africanos passam a ser enviados à América.


Características dos navios negreiros:

  • O tráfico já é organizado por companhias e contratadores.

  • Primeiras rotas diretas África → Brasil.

  • Navios adaptados com porões baixos, destinados a armazenamento de mercadoria — agora seres humanos.


Principais regiões africanas fornecedoras:

  • Guiné e Senegâmbia: Mandinga, Fula, Wolof.

  • Costa da Mina: Ewe-Fon (Jeje), Akan (Ashanti, Fantis).


Portos brasileiros que mais recebiam:

  • Bahia (o principal no período).

  • Pernambuco.


Cena possível: descrição do cheiro de fezes, vômito e sangue impregnado na madeira — característica das primeiras viagens longas.


SÉCULO XVII (1600–1699) — O DESENVOLVIMENTO DA “INDÚSTRIA” NEGREIRA


Contexto: Ciclo do açúcar explode. O tráfico atinge escala industrial.


Navios negreiros agora têm:

  • Andares internos (porões duplos) para aumentar o número de cativos.

  • Gaiolas e barras de ferro.

  • “Tombadilhos” para conter rebeliões.


Tecnologia de opressão desenvolvida:

  • Algemas padronizadas.

  • Máscaras de Flandres para impedir suicídio por mordida na língua.

  • Algibeiras para alimentação forçada.


Regiões africanas predominantes:

  • Congo e Angola (sob domínio português).

  • Grupos: Bakongo, Ambundu, Ovimbundu.Responsáveis por mais de 60% dos cativos no século.


Portos brasileiros:

  • Bahia

  • Recife

  • Rio de Janeiro (começa a crescer)


Fatos marcantes:

  • Grandes rebeliões a bordo, especialmente de angolas e congos.

  • A taxa de mortalidade nas travessias chega a 20%.


SÉCULO XVIII (1700–1799) — O PICO ABSOLUTO DO TRÁFICO


Contexto: Ciclo do ouro em Minas Gerais; demanda gigantesca.

A travessia se torna rotina de comércio global:


  • Navios maiores, construídos especificamente para tráfico humano.

  • Capacidade: 300 a 600 pessoas amontoadas.

  • Camas de tábuas com espaço inferior a 50 cm de altura.


Rotas mais usadas:

  • Luanda → Rio de Janeiro

  • Benguela → Bahia

  • Costa da Mina → Salvador


Etnicidades predominantes:


  • Angola e Congo continuam dominantes.

  • Aumenta o número de Ewe-Fon (Jeje) e iorubás (Nagô) oriundos da região que hoje é Benin e Nigéria.


Cenas possíveis:

  • Chuva e desidratação transformando o porão em lama humana.

  • Morte de crianças e descarte de corpos ao mar.


Cultura e resistência:

  • Cantos ritmados que mantinham a memória das aldeias.

  • Quilombos no Brasil formados por fugitivos que sobreviviam à travessia.


SÉCULO XIX (1800–1850) — O CONTRABANDO DE ESCRAVO


Contexto: Pressão inglesa contra o tráfico; Brasil finge que proíbe, mas continua.


Características principais:

  • Navios menores e mais rápidos para fugir da fiscalização britânica.

  • Desembarques clandestinos em praias isoladas (Ilha Grande, Ubatuba, Alagoas).

  • Mortes aumentam por falta de comida e pressa.


Pontos importantes:

  • 1831: Lei Feijó “pra inglês ver” — proíbe o tráfico, mas ninguém cumpre.

  • 1850: Lei Eusébio de Queirós — o tráfico é realmente encerrado.

Etnicidades predominantes na fase final:

  • Maioria absoluta de centro-africanos: Angola, Congo, Benguela.

  • Alguns iorubás ainda entram, mas em número menor.


Impacto cultural no Brasil:

  • Última grande leva consolida a presença de:

    • Angola/congo → capoeira, batuque, congo

    • Iorubá → candomblé nagô

    • Jeje → candomblé jeje

    • Mina → tambor de mina no Maranhão


SÉC. XIX (APÓS 1850) — O FIM DO TRÁFICO E O COMEÇO OUTRA VIOLÊNCIA


Mesmo após a proibição:

  • milhares de africanos escravizados já viviam no Brasil;

  • o tráfico interno (do Nordeste para o Sudeste) se intensifica;

  • famílias africanas são desfeitas pela segunda vez — primeiro na África, depois no Brasil.


Se quiser, posso agora preparar:

  • uma linha do tempo detalhada do tráfico com datas, eventos, leis e personagens;

  • descrições para cenas dentro de um navio negreiro (inclusive o horror sensorial);

  • perfis de capitães, traficantes, marinheiros e escravizados;

  • mapas narrativos das rotas;


Aqui vai uma lista de rebeliões famosas em navios negreiros, com breves notas dramatúrgicas — pensadas para cena, tensão, silêncio e explosão, não para aula escolar.

1. La Amistad (1839)

Local: Atlântico / CaribeLiderança: Sengbe Pieh (Cinqué), do povo Mende

O que aconteceu:Africanos sequestrados em Serra Leoa se rebelam, matam o capitão e o cozinheiro, assumem o navio — mas são enganados pela tripulação sobrevivente, que navega em círculos até os EUA.

Potência dramática:

  • Rebelião bem-sucedida no porão → convés

  • A luta continua no tribunal, não no mar

  • Conflito entre vitória física e prisão jurídica

2. Navio Little George (1730)

Local: Costa da África Ocidental

O que aconteceu:Africanos quebram correntes, tomam armas, matam parte da tripulação e incendeiam o navio.

Potência dramática:

  • Rebelião sem negociação

  • Escolha pela destruição total

  • Fogo como gesto político final

3. Navio Meermin (1766)

Local: Oceano Índico (Holandês)

O que aconteceu:Escravizados malgaxes recebem lanças para limpar o convés, se rebelam, matam oficiais. O navio acaba encalhado; muitos são recapturados.

Potência dramática:

  • O erro do opressor

  • Armas dadas “por descuido”

  • Rebelião que nasce da rotina

4. Navio Creole (1841)

Local: Caribe / Bahamas

O que aconteceu:Escravizados dos EUA se rebelam, matam um traficante, tomam o controle. Ao chegar nas Bahamas (onde a escravidão era ilegal), são libertados.

Potência dramática:

  • Rebelião que encontra um território livre

  • A geografia decide o destino

  • O mar como fronteira moral

5. Navio Antelope (1820)

Local: Atlântico

O que aconteceu:Africanos se rebelam, matam tripulantes; o navio naufraga. Os sobreviventes são capturados — metade devolvida à África, metade mantida em servidão “legal”.

Potência dramática:

  • Rebelião seguida de ambiguidade jurídica

  • Vitória quebrada

  • A crueldade burocrática substitui o chicote

6. Navio São José Paquete de África (1794)

Local: África do Sul

O que aconteceu:Há indícios de tentativa de revolta antes do naufrágio. O navio afunda; mais de 200 africanos morrem acorrentados.

Potência dramática:

  • Rebelião abortada

  • Correntes + água

  • Silêncio absoluto como desfecho

7. Navio Vigilante (1822)

Local: Atlântico

O que aconteceu:Africanos se soltam parcialmente, atacam a tripulação; a revolta é reprimida com extrema violência.

Potência dramática:

  • Rebelião quase invisível

  • Fragmentos de resistência

  • A história contada só pelos vencedores

8. Navio Kent (1720)

Local: Atlântico

O que aconteceu:Escravizados tentam tomar o navio; a tripulação explode o paiol para impedir a revolta.

Potência dramática:

  • O opressor prefere a morte coletiva

  • Rebelião como ameaça maior que o lucro

  • Final abrupto, sem redenção

Observação importante para o seu projeto

A maioria das rebeliões não tem nomes, datas exatas ou líderes registrados, porque:

  • arquivos foram destruídos,

  • capitães mentiram,

  • companhias omitiram os fatos,

  • e sobreviventes foram silenciados.

Isso abre um espaço legítimo — ético e literário — para a dramatização ficcional baseada em padrões históricos, como você já está fazendo com os Bakongo.

Se quiser, no próximo passo posso:

  • criar uma cena original inspirada em uma dessas revoltas,

  • adaptar uma delas especificamente para Bakongo,

  • ou ajudar a decidir qual rebelião dialoga melhor com o seu romance histórico sem cair em heroísmo fácil.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
POVOS INDÍGENAS

filme: https://youtu.be/59eHYbTP0I4?si=zFUiNtp_2jTIEdU1 Geral: Como era gostoso o meu francês

 
 
 
DOCUMENTOS HISTÓRICOS

No romance histórico, como saber se um documento histórico é falso? Essa é uma pergunta central — e delicada — para quem escreve romance histórico, sobretudo quando o tema envolve violência, apagament

 
 
 
A IMPORTÂNCIA DO HISTÓRIA PRETA

História Preta é, sem exagero, uma das melhores fontes narrativas para o que você quer construir. É rigoroso, profundamente pesquisado, mas sobretudo conta histórias de maneira humana, dramática e cin

 
 
 

Comentários


bottom of page