ESTRUTURA DA OBRA
- Paulo Pereira de Araujo

- 23 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 25 de dez. de 2025
Quatro partes, quatro gerações.
Aqui está o mapa completo, pensado como uma engenharia narrativa para o romance — conectando sua ideia, a estrutura não linear, o “narrador historiador” (que só nós saberemos ser Horácio), e as séries mais potentes do História Preta.
O objetivo é criar um guia de pesquisa + guia de construção literária.
MAPA COMPLETO — O ROMANCE DOS TRÊS SÉCULOS
I. A ARQUITETURA DO LIVRO
O romance pode ser montado em blocos-temas, e não em ordem cronológica.Cada bloco articula:
um fragmento de pesquisa do narrador,
uma cena ficcional,
uma memória histórica real,
documentos, cartas, vozes.
Estilo LITERALEGO: capítulos encaixáveis, saltos temporais, peças que se iluminam umas às outras.
Personagens fixos principais:
O Narrador (Horácio disfarçado) — pesquisador, ensaísta, arqueólogo da dor colonial.
O Avô — capitão de navio negreiro → traficante poderoso.
O Pai — negociante do século XIX, urbano, sofisticado, “moderno” (um escravista de gabinete).
O Neto — abolicionista complexo, cheio de culpas, tentando reparar o irreparável.
Personagens históricos que entram e saem:Luís Gama, Nabuco, Rebouças, Francisco Félix de Souza, líderes malês, figuras de Palmares, Dandara, africanos islamizados, escravizadas que resistem, ingleses, militares, etc.
II. BLOCOS E AS SÉRIES DO HISTÓRIA PRETA
1. BLOCO — O PLANO (o núcleo do livro)
Série: O PlanoTema central: o Brasil como máquina escravocrata planejada.
Como usar:
O avô, ainda jovem, entra no comércio influenciado por essa rede.
O pai opera justamente na fase do “plano brasileiro” para driblar a Inglaterra.
O narrador encontra documentos falsificados, cartas, contabilidade de carne humana.
Cenas possíveis:
Reuniões secretas em Salvador, Recife ou Rio.
Diplomatas e traficantes manipulando tratados.
Cartas que mostram a cumplicidade de generais, juízes, governadores.
2. BLOCO — PALMARES
Série: PalmaresTema: resistência organizada.
Como usar:
Para contrastar o avô e o pai com uma outra tecnologia social: autogoverno negro, alianças, guerra.
Como capítulo ensaístico-poético do narrador, mostrando outra história possível do Brasil.
Cenas possíveis:
Um personagem escravizado (fictício) foge e chega a um mocambo.
Debates internos entre líder militar e líder espiritual.
3. BLOCO — OS MALÊS
Série: Revolta dos MalêsTema: intelectualidade negra, islamismo africano, alfabetização.
Como usar:
Introduzir personagens nagôs e haussás.
Mostrar que o Brasil escravocrata tem medo de gente que lê — especialmente quem lê em árabe.
Conectar o pai do seu comerciante com o medo de rebeliões no Recôncavo.
Cenas possíveis:
O narrador encontra manuscritos em árabe em um arquivo morto.
Uma escravizada escondendo papéis religiosos.
A transmissão clandestina de conhecimento.
4. BLOCO — AS GRANDES FAMILÍAS ESCRAVOCRATAS
Séries dispersas do História Preta + O PlanoTema: aristocracia escravista e a moral torcida da elite.
Como usar:
O pai como membro de um grupo de comerciantes sofisticados, que negociam escravos como se fossem ações.
A frieza contábil da escravidão.
Cenas possíveis:
Jantares luxuosos com discursos pseudocientíficos justificando o tráfico.
Correspondências sobre preços, perdas, lucros, fugas.
5. BLOCO — A VIDA NO NAVIO
Série: Episódios do O Plano + vários episódios sobre o Atlântico negroTema: violência total, logística da morte.
Como usar:
O avô capitão vive isso na pele e depois se acostuma — o que é ainda pior.
Mostrar a imensa engenharia: redes na África, suprimentos, seguros marítimos, corrupção nos portos.
Cenas possíveis:
Descrição dos porões, o ar irrespirável, a doença, o lixo acumulado.
Rebeliões dentro do navio.
A primeira travessia do avô, ainda chocado.
A última, já brutalizado e indiferente.
6. BLOCO — O NASCIMENTO DO ABOLICIONISMO
Séries:
episódios com André Rebouças
episódios com Luiz Gama
episódios sobre pós-abolição
Guerra do Paraguai (negros usados como moeda militar)
Como usar:
O neto é contemporâneo desses personagens reais.
Ele se envergonha do legado do avô e do pai.
Começa a frequentar rodas literárias, encontros políticos, tipografias, debates no Rio ou São Paulo.
Cenas possíveis:
Encontro com Luís Gama em algum julgamento.
Conversas com jovens abolicionistas da classe média.
Um jornal clandestino escrito por negros e aliado pelo neto.
7. BLOCO — O PÓS-ABOLIÇÃO
Série: vários episódios sobre
favelas,
abandono de libertos,
racismo científico,
Carolina Maria de Jesus (eco distante, mas útil como conclusão temporal).
Como usar:
O narrador analisa documentos que mostram que a abolição não libertou ninguém.
O neto morre pobre, esquecido, apesar de seu ativismo.
O país continua escravo de outras maneiras.
Cenas possíveis:
Primeiras favelas.
Racismo nas escolas militares.
Escravização por dívida em 1890.
III. LINHA NARRATIVA DO SEU PERSONAGEM FAMILIAR
1. O AVÔ — “O capitão”
Baseado nos episódios de navio:
jovem pobre que entra no tráfico,
reforma moral gradual (quanto mais lucra, menos sente),
uma última travessia que o marca,
ascendência econômica no Brasil.
2. O PAI — “O comerciante urbano”
Baseado na série O Plano:
negociações,
corrupção política,
tráfico clandestino depois da lei de 1831,
vida confortável,
racionalizações racistas.
3. O NETO — “O abolicionista”
Baseado nos episódios de Luís Gama, Rebouças, Guerra do Paraguai:
rompimento com o pai,
aproximação de negros livres,
desconstrução do próprio privilégio,
luta de consciência.
IV. O TRABALHO DO NARRADOR (o Horácio oculto)
Ele:
lê cartas,
visita arquivos,
encontra contradições,
refaz cenas,
imagina diálogos,
mistura análise histórica com emoção.
Cada capítulo dele pode funcionar como:
comentário,
ensaio,
fragmento de diário,
reflexão filosófica,
quase-crônica.
V. SE VOCÊ QUISER, AGORA POSSO PRODUZIR:
A linha do tempo completa da família dos três homens.
O arco dramático de cada geração.
Fichas completas dos personagens históricos que aparecerão.
Lista de episódios específicos do História Preta úteis para cada bloco.
Primeiras cenas escritas no estilo LITERALEGO.
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