CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS
- Paulo Pereira de Araujo

- 24 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 25 de dez. de 2025
1. PRIMEIRA GERAÇÃO — O AVÔ
NOME (sugestão): MANOEL SEVERO DA ROCHA
Nascimento: 1762, Viana do Castelo (Portugal)Morte: 1831, SalvadorPapéis: capitão → proprietário de navio → traficante próspero
PERFIL
Manoel Severo começou como muitos: pobre, sem herança, sem instrução. Foi grumete em navios de pesca e depois em embarcações portuguesas que cruzavam a costa africana. O primeiro embarque em um navio negreiro veio por acaso — um capitão adoeceu e faltou gente. Mas o dinheiro rápido, a ascensão social e o poder absoluto sobre o navio o transformaram.
Ele desenvolveu três características marcantes:
Uma frieza calculada, quase matemática, perante a “carga humana”.
Uma crença sincera de que era apenas um homem de negócios, nunca um carrasco.
Um orgulho feroz de ter “construído tudo com as próprias mãos”.
A brutalidade do sistema não o incomodava tanto quanto a ideia de estagnação social. Para ele, “é preciso ser duro para ser alguém no mundo”.
Aos quarenta anos, compra seu próprio navio. Aos cinquenta, já tem três, um armazém no cais da Bahia e influência política. Nunca se viu como criminoso — via-se como empreendedor.
CONFLITO DRAMÁTICO
Quando velho, Manoel Severo passa a sofrer ataques de febre e alucinações marítimas. Vê rostos no escuro. Sonha com pessoas acorrentadas chamando seu nome. Ele tenta abafar isso com missas, doações e uma religiosidade tardia — não por arrependimento, mas por medo.
2. SEGUNDA GERAÇÃO — O FILHO
NOME (sugestão): ANTÔNIO SEVERO DA ROCHA
Nascimento: 1804, SalvadorMorte: 1876, Rio de JaneiroPapel: herdeiro, traficante poderoso, negociante internacional.
PERFIL
Antônio não conheceu a pobreza. Cresceu numa casa com escravizados domésticos, estudou com professor particular, falava francês e tinha uma elegância artificial herdada do contato com mercadores europeus.
Mas herdou também o mundo do pai: navios, cifras, conexões com traficantes africanos, suborno de autoridades, relações políticas.
Ele não é cruel por instinto — é indiferente por formação. Para ele, a escravidão é “o pulmão da economia”. Repetia o discurso comum da elite:
“Sem o tráfico, nada cresce, nada funciona, nada se sustenta.”
Ao contrário do pai, ele não pisa no porão. Detesta o cheiro do cais, mas adora contar dinheiro.
Com o tempo, se aproxima de sociedades secretas que defendiam o retardo da abolição. Ele financia jornais, políticos, compra influência, viaja à Europa para justificar “cientificamente” o sistema.
CONFLITO DRAMÁTICO
Tem um único ponto fraco: o filho.Quer que ele seja refinado, culto, respeitável.Mas a distância entre a educação europeizada e a sujeira do porto cria uma rachadura profunda.
3. TERCEIRA GERAÇÃO — O NETO (o abolicionista)
NOME (sugestão): EDUARDO SEVERO DA ROCHA
Nascimento: 1838, SalvadorMorte: 1911, RecifePapel: jornalista, abolicionista, dissidente da família.
PERFIL
Eduardo cresce em um ambiente contraditório: privilégio extremo e culpa silenciosa. Estuda Direito em São Paulo, convive com abolicionistas, com estudantes negros livres, com ideias francesas — liberdade, igualdade, dignidade.
O contato com Luís Gama seria perfeito aqui — e historicamente plausível.
Eduardo começa a perceber o horror do negócio familiar. Em seus cadernos, escreve:
“Tudo o que tenho foi comprado com a dor de outros. Sou um herdeiro de fantasmas.”
Quando o pai mostra orgulho da frota de navios, Eduardo sente náusea. Não consegue fingir. Não consegue compactuar.
A ruptura se dá quando ele presencia um castigo de escravizado na fazenda da família. O olhar do castigado o destrói por dentro: não é ódio, é desumanização absoluta.
Eduardo rompe com o pai, abandona o sobrenome nos artigos, passa a viver com modestos rendimentos de jornal.
TRAJETÓRIA ABOLICIONISTA
Publica textos incendiários em jornais.
Ajuda escravizados a fugirem para quilombos urbanos.
Trabalha em redes de alforria financiadas por estudantes e mulheres abolicionistas.
Comparece a comícios, é agredido, preso.
Torna-se orador respeitado, amigo de Gama, Rebouças, Patrocínio.
CONFLITO DRAMÁTICO
Na velhice, Eduardo cuida do pai moribundo — que nunca o perdoou.E descobre que não há justiça perfeita, apenas reparação possível.
4. DINÂMICA DRAMÁTICA ENTRE AS TRÊS GERAÇÕES
Aqui está o ouro narrativo:
AVÔ → brutalidade que vira fortuna
a riqueza nasce no porão, na corrente, no grito.
PAI → poder que justifica tudo
ele aperfeiçoa o negócio, profissionaliza a crueldade, embala em discurso econômico.
NETO → ruptura ética
ele vê o abismo moral da família e tenta quebrar o ciclo.
Isso é o Brasil condensado em uma família:
violência → fortuna → modernização → consciência → conflito.
5. POSSÍVEIS CENAS ENTRE ELES
1. O avô ensinando o menino a ler mapas marítimos
sem mencionar, jamais, o que havia naqueles porões.
2. O pai mostrando ao filho os livros de contabilidade do tráfico
e o menino perguntando, inocente:“Pai, por que aqui os números são escritos como se fossem sacos de farinha?”
3. O neto vasculhando documentos antigos
e descobrindo cartas do avô descrevendo o embarque de “peças” na costa africana.
4. Um embate entre pai e filho
onde o pai diz:
“O país inteiro depende disso.”e o filho responde:“Talvez o país inteiro esteja errado.”
5. O avô agonizando, chamando por nomes africanos que ninguém conhece
fantasmas que só ele viu.
Se quiser, posso agora:
criar árvore genealógica completa,
escrever diálogos curtos entre as gerações,
criar cartas antigas do avô e do pai,
escrever o capítulo 1 desse núcleo familiar,
aproximar esse arco do narrador-Horácio,
costurar a família com personagens africanos que atravessam o navio e chegam ao Brasil.
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